O Papel do Fisiologista Moderno

(texto originalmente publicado no site futeboltotal.net.br)

Num primeiro momento fiquei muito feliz pelo convite de participar aqui do site, afinal quem não gosta de ter seu trabalho reconhecido e de ter a oportunidade de compartilhar suas ideias com seus colegas? Mas de cara já me foi lançado o primeiro desafio: escolher qual tema deveria abordar.
A princípio não deveria ser algo difícil, uma vez que eu sou fisiologista, o tema óbvio é falar sobre a fisiologia no futebol. Porém cada vez mais venho buscando associar meu trabalho com os demais departamentos do clube. Eu acredito que o desempenho de um atleta está vinculado a 4 áreas: físico, técnico, tático e psicológico. Isso significa que não basta analisar as capacidades de um atleta, mas também como esse atleta se encaixa dentro de uma equipe.
Dados físicos podem ser “facilmente” mensurados a partir do momento que se tem a tecnologia a disposição. Dados técnicos também podem ser facilmente coletados com os diversos sistemas de scout disponíveis no mercado. A questão tática também vem sendo cada vez mais valorizada dentro dos clubes com seus departamentos de análise de desempenho. E a questão psicológica eu acredito que ainda carece de evolução no mundo do futebol, apesar de ser extremamente valorizado por muitos de maneira empírica, uma vez que é difícil irmos para uma partida sem que alguém diga alguma palavra de motivação e incentivo.
Até aí as coisas estão muito bem separadas. Porém alguns já devem ter ficado incomodados quando pontuei com relação ao sistema de scout, pois muitos questionam a respeito do contexto em que os gestos técnicos são realizados. Algumas questões estão cada vez mais em evidência como “de que adianta ter mais posse de bola que o adversário se a posse não foi de maneira produtiva?” ou então “de que adianta ter mais passes certos se em sua maioria são passes sem objetivo?”. Isso apenas para citar as mais comuns.
Aí que eu finalmente começo a chegar ao objetivo de todo esse texto: se essas questões são válidas para os gestos técnicos, por que não temos os mesmos pensamentos com relação à parte física? Todos nós queremos que nossos jogadores corram mais em campo, com mais intensidade, porém faço a pergunta: correr pra onde?
Não estou aqui para dizer que os dados não servem pra nada. Porém quero apenas ponderar a sua importância. Os dados de jogo e treino devem sim ser coletados sempre que possível, porém a análise deve ser sempre de maneira integrada com todas as variáveis que cercam uma partida de futebol. Quando fazemos isso, podemos encontrar dezenas de justificativas para uma variação de desempenho de determinado atleta ou da equipe como um todo, podendo inclusive ser em função de alguma variável física.
Dentro dessas questões, fico meio incomodado com o termo de “fisiologista” e também me incomoda o termo “análise de desempenho”, pois creio que isso não representa as devidas funções. Assim como eu acho que os departamentos de análise de desempenho dos clubes são responsáveis pela análise de desempenho técnico e tático, também acredito que grande parte do meu trabalho é de análise de desempenho físico.
Não estou negando a importância de algumas análises hoje atribuídas aos fisiologistas, como análise de indicadores bioquímicos, antropometria, análise de imagens termográficas, avaliações físicas, etc. Porém divido esse trabalho em duas partes: uma associada à prevenção de lesões (de extrema importância dentro de um clube) e a outra parte que eu coloco subordinada à análise de desempenho físico dos atletas dentro de seus contextos de jogo. A coisa mais comum que se encontra no mundo do futebol é aquele jogador que fica aquém nas avaliações e que leva vantagem em seus colegas nas situações específicas de jogo. Isso pode demonstrar sim um potencial de evolução em alguma variável, porém deve-se tomar cuidado também para não interferir em outras questões como padrões biomecânicos, aspectos psicológicos, nutricionais, entre outros.
Acredito que dentro do futebol moderno, e com as evoluções tecnológicas, torna-se cada vez mais necessário que as análises sejam integradas entre os departamentos do clube para que as conclusões sejam mais precisas e assim reduzir erros de interpretação de dados descontextualizados. Por isso buscarei abordar nos próximos textos a contextualização da fisiologia no futebol, sempre de maneira muito prática e objetiva.

André Gaspar, 23/09/2016



CLUBES QUE UTILIZARAM


paisandu_85_70
oeste_85_70
cerezo_85_70
real2_85_70
Logo_gremio-barueri_85_70
bragantino_85_70
osasco_85_70
guarani_85_70